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The Finest Hour

• Por Alfa Romeo Clube do Brasil
Uma homenagem a Wilson Fittipaldi Jr
The Finest Hour

THE FINEST HOUR

Por Alberto Maurício Caló

 

UMA HOMENAGEM A WILSON FITTIPALDI JR

 

“The finest hour” é uma expressão em inglês para designar o melhor momento, um ato, um gesto, uma atitude, instantânea ou continuada, de excepcional bravura, valentia, coragem, nobreza de espírito.

 

Um momento de provação em que o indivíduo em iluminação ou em “estado de graça”, estabeleceu um novo paradigma pelo qual tudo, antes ou depois, seria balizado.

 

Constatado esse ato ou feito excepcional a coletividade vai apontar que aquela foi a sua melhor hora, “The finest hour” em inglês

 

Wilson Fittipaldi Jr foi um dos mais ecléticos e completos pilotos que o Brasil viu nascer.


Um raro talento que parecia muito à vontade em um Renault Gordini com seus  40 HP de emoção “ (como dizia a propaganda da época) ou em um Porsche 917/30 com quase 1200 HPs.

 

Mas, vamos direto ao ponto: 

 

Wilsinho já tinha dirigido de tudo até o final dos anos 60:

De pequenos Fiats Abarth, Renault Gordinis, Willys Interlagos, Alpines, Alfa Romeos de vários modelos, passando por fórmulas como o Willys Gávea e carros de sua própria produção como o Fitti Vê, Fitti Porsche e tantos outros. 

Após uma aparição internacional em um torneio de F 3 argentino com a equipe Willys, se esperava que Wilsinho fosse receber um eventual convite para correr na Europa com a equipe Alpine em F3 e F2

As coisas demoraram um pouco mais para acontecer, mas em 1970 Wilsinho estava a caminho da Europa seguindo os caminhos de seu irmão mais moço Emerson

Digamos que com a experiência de Wilsinho a passagem pela F 3 e F2 foi quase uma formalidade para a obtenção da licença de F-1

Wilsinho mesmo com equipamentos modestos logo obteve vitórias e resultados expressivos em F-3 e F-2 mostrando o que já se sabia no Brasil: ele era um daqueles pilotos diferenciados que podiam “sentar em qualquer coisa” sobre quatro rodas e imediatamente apresentar um “tempo” competitivo - simples assim

 

Após alguns bons resultados com F3 e F2 na Europa, Wilsinho chegou a testar um F-1, o Lotus Ford 49-C, por sugestão de Emerson Fittipaldi a Colin Chapman.

 

Wilsinho estreou em uma prova extra-campeonato, o GP da Argentina de 1971 que envolvia carros de F1 e F.5000. Era uma prova-teste para o GP oficial de F-1 da Argentina de 1972. 

 

A prova argentina contava um campo um pouco mais fraco de adversários, mas mesmo assim com alguns nomes famosos da F-1.  Wilsinho com um antigo Lotus 49 C estava no famoso “Gold Leaf Team Lotus” acompanhado seu irmão Emerson e Reine Wisell ambos nos mais modernos Lotus 72C, modelo no qual Emerson havia famosamente vencido o GP dos EUA em Watkins Glen em 4/10/70.

 

A prova foi realizada no Autódromo Municipal de Buenos Aires (depois Autódromo Oscar Alfredo Galvez) em 24/1/71 e foi uma das derradeiras aparições do lendário Lotus Ford 49, carro que em sua primeira versão tinha estreado motores Ford Cosworth com Jim Clark e Graham Hill na temporada de 1967.

 

 


Foto: Autódromo Municipal de Buenos Aires, Argentina, 24/1/71: Wilsinho estreia na F-1 no lendário Lotus Ford 49 C ultimo descendente da estirpe dos Lotus 49 que tantos campeões carregou como Clark, Hill, Rindt e também foi protagonista da estréia de Emerson Fittipaldi na F-1.



Foto: Autódromo Municipal de Buenos Aires, Argentina, 24/1/71: o Lotus Ford 49 C de Wilsinho em primeiro plano é acompanhado dos mais modernos Lotus 72-C de Reine Wisell e Emerson Fittipaldi.

 

Em Buenos Aires, com um campo mais fraco de concorrentes, Wilsinho partiu de um razoável nono lugar no grid, mas teve que abandonar a prova disputada em duas baterias.

 

Mas eventualmente os caminhos de Wilsinho em 1971, com o mesmo apoio de seus patrocinadores brasileiros na F-2, o levaram de volta à F-1 já então na Brabham em 1972, equipe que vinha de ser adquirida por Bernie Ecclestone.

 

1972 – Primeiros passos na F-1

 

Em 1972, ano em que seu irmão Emerson partiria para a conquista do mundial de F1, Wilsinho iniciava seus passos na equipe Brabham-MRD (MRD para Motor Racing Developments) lendário time fundado pelo tricampeão mundial Jack Brabham e que com a aposentadoria desse no final de 1970, passava para as mãos de seu sócio e projetista-chefe Ron Tauranac e em 1972 deste para Bernie Ecclestone.

 

Em 1971 a equipe era conduzida pelo projetista Ron Tauranac que como novo dono fez a transição entre Jack Brabham e Bernie Ecclestone que assumiria o controle majoritário em 1972.

 

Não se pode, porém, dizer que a perspectiva era brilhante. Agregado à equipe depois que a temporada já se havia iniciado, a Wilsinho coube um velho Brabham Ford BT33, um carro eficiente da temporada de 1970, mas que já estava ultrapassado. Embora o modelo tivesse tido uma atualização com um bico mais envolvente, uma tomada de ar e um novo aerofólio, o BT 33 já ia para sua terceira temporada na F-1.

 

Os companheiros de Wilsinho na Brabham em 1972 seriam o lendário Graham Hill, ex bicampeão mundial e vencedor de Indianápolis, que iria vencer Le Mans naquele mesmo ano, conquistando uma “tríplice coroa” que nenhum outro piloto (até esta data) conseguiu. Outro companheiro de Wilsinho era a nova sensação da F1, o ultra-talentoso Carlos Reutemann, futuro vice campeão mundial.

 

Conforme Wilsinho relatou ao autor, o ambiente na Brabham era agradável. Hill era irônico e divertido, fazia piadas constantemente e Wilsinho também se dava bem com Reutemann, de modo que o clima era muito bom. 

 

O mesmo não se poderia dizer dos carros, que no início eram três modelos. Ralph Bellamy desenhou o novo BT 37 como evolução do BT34 que fora o último projeto de Ron Tauranac para a Brabham.

 

Hill conduziria no novo Brabham BT 37 nas primeiras provas, ficando Reutemann com o BT 34 e Wilsinho com o mais velho BT 33. O BT 33 era um carro projetado por Tauranac para a temporada de 1970 em que se mostrou muito competitivo nas mãos do dono da equipe Jack Brabham. Em 1971 o BT 33 tinha sido atualizado com nova frente e componentes, pilotado usualmente pelo australiano Tim Schenken. Em 1972 o velho BT 33 partia para sua terceira temporada, agora nas mãos de Wilsinho. 

 

Em março de 1972 Wilsinho participa de uma prova extra-oficial, o GP Brasil em Interlagos. Seria um GP de “teste” para ver se o Circuito poderia receber uma prova oficial de F1 no futuro. Por obra e graça de seu talento e enorme conhecimento da pista que era praticamente seu “quintal”, Wilsinho com o antigo Brabham BT 33 estréia de forma fulgurante e partindo do quarto lugar no grid logo toma a ponta da corrida para liderar as primeiras voltas.

 

O mundo volta à ordem com Emerson (Lotus 72D), Reutemann (Brabham Ford BT 34) e Peterson (March Ford 721) passando à frente. No final, uma quebra do Lotus nas últimas voltas tira e vitória de Emerson, mas Wilsinho completa o podium atras de Reutemann e Peterson.

 

 


Foto: Circuito de Interlagos 30/3/72:  Wilsinho está com o Brabham Ford BT33 da temporada de 1970 que tinha sido atualizado com nova frente e componentes. É o primeiro GP Brasil de F-1, disputado como prova extra oficial. Wilsinho liderou as primeiras voltas à frente de seu irmão Emerson (Lotus Ford 72 D) e de seu companheiro Carlos Reutemann com o mais novo Brabham Ford BT 34. Pouco depois Emerson assumiu a ponta, mas uma quebra no final da prova entregou à Reutemann a vitória. 


Foto: GP da Espanha, Circuito de Jarama, 1/5/72. Wilsinho guiou novamente o velho Brabham Ford BT 33. Foi a primeira prova oficial de F1 de Wilsinho e a terceira do campeonato de F-1 daquele ano. Oficialmente foi também a primeira prova de F-1 oficial em que dois irmãos participaram (Wilson e Emerson).

 


Foto: GP de Monaco no Circuito de Montecarlo 14/5/72. Nessa famosa edição do GP de Mônaco disputada sob chuva torrencial, Wilsinho voltou a pilotar o velho Brabham Ford BT 33 agora adaptado com um “bico” mais fino do BT 37, terminando em um bom nono lugar. Wilsinho já dava sinais que era o tipo de pista com que teve afinidades imediatas. Veremos as consequências a seguir

 

Assim que o segundo BT 37 ficou pronto para Reutemann, Wilsinho foi “promovido” ao BT 34 um estranho monoposto de F1 com dois radiadores laterais dianteiros que o tornavam semelhante a uma lagosta, daí ser chamado pelos ingleses de Brabham “lobster claw” e pelos franceses de Brabham “pinces de hommard”

Além de estranho, o carro não tinha sido particularmente bem sucedido nas temporadas anteriores assinalando apenas duas vitórias em provas extra campeonato (Hill- International Trophy – 1971 e Reutemann (GP Brasil extra oficial de 1972).

 


Foto: Graham Hill deu a primeira vitória ao estranho Brabham Ford BT 34 em uma prova extra campeonato, o International Trophy em Silvesrtone em maio de 1971. Na foto acima o carro é visto na corrida dos campeões em Brands Hatch no mesmo ano. Em 1971 a Brabham corria ainda nas corres australianas de verde com detalhes amarelos. 

 

Hill e Reutemann agora guiavam o carro mais atualizado, o BT 37 sempre equipado com o tradicional Ford Cosworth V-8.

 

Longe de ser um “supra-sumo” da F1 o BT 37 era um carro para brigar pelas posições intermediárias e buscar um eventual espaço entra os seis primeiros (mas sem aspirar a vitórias).

 

Com o BT 34 caberia a Wilsinho “tirar leite de pedra” e mostrar seu valor nas pistas especialmente difíceis e foi exatamente o que ele fez nas provas seguintes de 1972.


Foto: o Brabham BT 37 aqui visto com Carlos Reutemann no GP do Canadá de 1972, foi um carro razoável, capaz de disputar posições intermediárias. Assim como Wilsinho tinha patrocínio de entidades brasileiras, Reutemann tinha apoio da Argentina e de companhias locais como a petroleira YPF.

 

Depois de um bom nono lugar em Monaco sob chuva com o BT 33, Wilsinho estreou no BT 34 no GP da Bélgica (Circuito de Nivelles), mas foi vítima de uma quebra de câmbio após 28 voltas.

 
O primeiro lampejo de seu virtuosismo com o BT 34 veio no GP da França de 1972 no Circuito de Charade em Clermont-Ferrand, uma pista estreita em aclives e declives com um nível de dificuldade próximo de Nurburgring.

 

Mas sendo um circuito inserido em uma região montanhosa na região de Auvergne, Clermont Ferrand era tida e havida naquele tempo como o circuito mais bonito da Europa. 

Em um circuito raramente usado e que vários pilotos da F-1 sequer conheciam, praticamente todos ficaram quase “perdidos” na busca pelas melhores regulagens.


Mas Wilsinho não era piloto de se deixar intimidar por um circuito difícil , nem de esperar a melhor regulagem antes de sentar o pé no acelerador..........…

Surpreendentemente nos treinos com o velho BT 34 ele se instala na 14ª posição deixando Reutemann em 17º e Hill em 20º com os Brabham mais novos. 

 

Para efeito de comparação Emerson, que também não conhecia a pista, teve que se contentar de largar em oitavo lugar com o carro que seria campeão daquele ano e olhe que Emerson também era um “notório acertador” de carros.


Foto: GP da França no Circuito de Charade em Clermont-Ferrand 2/7/72. Após um  brilhante treino em que Wilsinho (Brabham Ford BT 34)  largou à frente de Reutemann e Hill nos mais novos BT 37, a prova resultou em um ótimo oitavo lugar.

 

Ele seria ainda o sétimo no GP da Alemanha (Nurbugring), mas o velho Brabham quase sempre quebrava, o que não impedia Wilsinho de mostrar seu brilho.


No GP dos EUA em Watkins Glen com o velho BT 34, Wilsinho parte em 13º e começa surpreendentemente a escalar o grid passando em 10º na primeira volta. Com Emerson fora e, embora perdendo uma posição para Ronnie Peterson (March Ford), Wilsinho ultrapassa Regazzoni (Ferrari) e sobe até o sexto lugar precedido apenas de Stewart e Cevert (Tyrrell Ford),  Hulme (Mclaren Ford), Peterson (March Ford) e Ickx (Ferrari), alguns dos melhores pilotos e carros daquela temporada de 1972

 


Foto: GP dos EUA no Circuito de Watkins Glen, 8/10/72. Wilsinho ainda no velho Brabham Ford BT 34 foi brilhante assumindo o sexto lugar antes da quebra após uma prova muito competitiva.

 

1973 – O grande ano

 

Com a saída de Hill no final da temporada de 1972, Wilsinho teria apenas Reutemann como companheiro para a temporada de 1973 e estava “promovido” para pilotar o Brabham Ford BT 37. Esse seria o carro para as primeiras provas de 1973, a saber, Argentina, Brasil e África do Sul, enquanto se aguardava um novo carro com um projeto totalmente diferente. 

 

Embora nessas três primeiras provas Wilsinho tenha sempre largado atrás de Reutemann, que já guiara o BT 37 durante boa parte da temporada de 1972 ele mostrou uma rápida adaptação ao carro.

 

Em sua primeira prova com ele no GP da Argentina no Circuito Municipal de Buenos Aires, em 28/1/73, Wilsinho guiou de uma forma consistente obtendo um ótimo sexto lugar e marcando seus primeiros pontos no campeonato de F-1.