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Circuito da Gávea: 1937 - GP Cidade do Rio de Janeiro (Parte 13)

• Por Alfa Romeo Clube do Brasil
Parte 13 do incrível artigo elaborado por Alberto Maurício Caló sobre o Circuito da Gávea.
Circuito da Gávea: 1937 - GP Cidade do Rio de Janeiro (Parte 13)

CIRCUITO DA GÁVEA – 1937 - GP Cidade do Rio de Janeiro

(PARTE 13)                                                                         Por Alberto Maurício Caló


Vamos agora adentrar à descrição da corrida em si, mas antes vamos tratar de mais alguns personagens do Rio ligados diretamente à organização das provas do Circuito da Gávea e narrar mais alguns hábitos gastronômicos da então capital onde os banquetes e o número de convidados ( o “numero de talheres”) eram um denominador essencial para se averiguar a importância de determinado evento fosse social, político ou esportivo.


CARDEAL LEME 



Sebastião Leme da Silveira Cintra ou simplesmente Cardeal Leme (1882-1942) foi um dos religiosos de maior importância no seu tempo e em especial no contexto dos anos 1930 na capital federal (Rio de Janeiro). Sua carreira religiosa o inseriu em eventos marcantes da história brasileira.

Em 1913 acompanhou o bispo Dom Duarte Leopoldo e Silva para o lançamento da pedra fundamental da nova catedral metropolitana de São Paulo que viria a ser a Catedral da Sé.

Em 1922 já no Rio de Janeiro, acompanhou a famosa obra de remoção do Morro do Castelo no Centro da Cidade. Então como arcebispo, conduziu a procissão que partiu do Morro do Castelo transferindo da antiga Igreja de São Sebastião as cinzas de Estácio de Sá, a imagem de São Sebastião e o marco de fundação da Cidade do Rio de Janeiro. 

Mais tarde sucedeu o famoso Cardeal Arcoverde na Sé metropolitana do Rio de Janeiro onde em seguida teve fundamental importância na transição pacífica do poder ente o Presidente Washington Luiz e os vitoriosos da revolução de 1930. Para evitar derramamento de sangue o Cardeal Leme famosamente acompanhou o presidente desposto de carro na saída do Palácio Guanabara.

Em mais uma presença marcante fez, por legado Papal, a consagração da estátua do Cristo redentor em 1931 e, por fim, foi o Fundador da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC RJ) em 1941.

O Cardeal Leme como figura atenta e atuante no Rio de Janeiro da época logo evitou que “missa de domingo e corrida na Gávea” fossem eventos concorrentes e fez com que os serviços religiosos de domingo não ficassem de lado. Desse modo, oportunamente integrou os serviços religiosos à sequência de eventos do dia da corrida

Segundo o “Correio de SP” todos os corredores estrangeiros e brasileiros compareceram dando uma prova de alta educação e de elegância espiritual na Capela de N Sra. Da Paz para “ouvir uma missa em acção de graças, antes do início da corrida...”

Mas não foram só os pilotos que foram espiritualmente atendidos: O jornal “O Imparcial” noticiou que a “Ação Católica vai mandar realizar hoje na Gávea várias missas a fim de facilitar às pessoas que vão assistir à corrida o cumprimento de seus deveres religiosos (segue o cronograma e endereços de missas em às 6:15, 7:00 (três missas) e 8:00 horas nas proximidades...”.

E completou o mesmo jornal “a participação da Igreja no entusiasmo popular...A igreja católica determinou pela autoridade se seu chefe supremo nesta capital S.E (Sua Eminência) o Cardeal Leme que se erigissem altares em mais de um ponto daqueles logradouros para que neles se celebrassem missas a serem ouvidas pela multidão....”

 

PEDRO ERNESTO


Foto: Pedro Ernesto de terno cinza claro ao centro e à direita em evento formal, de casaca, com condecorações.


Pedro Ernesto do Rego Baptista ou simplesmente “Pedro Ernesto” (1884-1942) foi um médico e político pernambucano indissociavelmente ligado à criação do Circuito da Gávea.

Assumiu a Prefeitura do Rio como Distrito Federal como interventor de 1931 a 1934 e depois como prefeito eleito pela Câmara no período 1935 a 1936.

Foi responsável pela formação de uma rede hospitalar que até hoje é o eixo dos hospitais públicos do Rio (Hospitais Getúlio Vargas, Carlos Chagas, Jesus, Rocha Faria, Paulino Werneck, Miguel Couto e o Hospital de Vila Isabel que hoje ostenta seu nome Pedro Ernesto) e também pela criação de escolas municipais e escolas técnicas e a instalação da Universidade do Distrito Federal

Pedro Ernesto foi também especialmente atento ao potencial dos eventos turísticos e esportivos no Rio criando um departamento de turismo 

Incentivador do Carnaval, promoveu em 1935 a oficialização os desfiles de escola de samba com uma subvenção oficial. 

Conforme relata Paulo Scali em seu magnifico livro “Circuitos de Rua”, Pedro Ernesto abraçou logo a idéia de um circuito automobilístico internacional como grande evento esportivo da cidade e junto a seu “Presidente do Conselho de Turismo”, Lourival Fontes, delegou ao Autómovel Clube, ou seja, a Carlos Guinle, a missão de sugerir um traçado. Guinle instalou uma “comissão de entusiastas” para os estudos que seguiram basicamente aceitou sugestão de Manuel de Teffé, amigo de família dos Guinle e já com experiência de competições na Europa. 

Teffé teria se inspirado no Circuito de Monaco, vislumbrando uma passagem da pista à beira-mar e uma subida sinuosa (o que em Mônaco seria a parte alta do bairro de Monte-Carlo), características observadas no Circuito da Gávea, que, no entanto, resultou bem mais longo, complexo e exigente que o traçado monegasco.

O subsequente desentendimento de Pedro Ernesto com Getúlio Vargas e seu afastamento da Prefeitura não afetaram a memória da gestão marcante de Pedro Ernesto na Cidade do Rio. Até hoje a honraria máxima concedida pela Cidade do Rio de Janeiro é a Medalha Pedro Ernesto

 

MONSENHOR OLÍMPIO DE MELO


Foto: No extato momento de nossa corrida o Prefeito do Distrito Federal era o Monsenhor Olímpio de Melo, visto aqui ao lado do Presedente Getúlio Vargas descerrando justamente uma placa momemorativa da reforma e pavimentação da pista do “trampolim do diabo”.

Olimpio Menezes de Melo (1886-1977) foi um religioso e político pernambucano.  Ao se transferir para o Rio e se integrar ao movimento católico do Cardeal Leme, o Padre Olímpio Melo se tornou uma figura popular na paróquia de Bangú e acabou se elegendo vereador. Assumiu a prefeitura do distrito federal entre abril de 1936 e julho de 1937 como interventor após o afastamento de Pedro Ernesto, por ser o então presidente da Câmara.

O curto mandato do Monsenhor Olímpio de Melo na Prefeitura naturalmente ficou à sombra tanto de seu antecessor (Pedro Ernesto) como de seu sucessor (Henrique Dodsworth), mas justamente na sua gestão se concluiu a pavimentação de parte do circuito e foi realizada a famosa prova de 1937. A se notar também que em sua curta gestão foi o primeiro a utilizar a famosa casa da Gávea Pequena como residência oficial da Prefeitura do Rio, função que o imóvel tem até os dias de hoje e que ao longo do tempo recebeu ilustres convidados internacionais inclusive o Presidente norte-americano Jimmy Carter.


OS BANQUETES e o COSMOPOLITISMO GASTRONÔMICO em 1937

No dia anterior à corrida da Gávea de 1937, conforme noticiou o Jornal “O Imparcial”, o Automóvel Club realizou um almoço de confraternização em homenagem aos participantes do “V Grande Prêmio da Cidade do Rio de Janeiro”. Segue a descrição..... “Viam-se à mesa, além dos diretores do A.C.B todos os volantes nacionais e estrangeiros, representantes da imprensa e pessoas graduadas...”



Foto: Almoço no ACB. Na ocasião “o delegado Dulcidio Gonçalves declarou em breve improviso que todos os jornalistas terão livre ingresso na pista, tudo lhes sendo facilitado para o desempenho de suas funções..”

A elite brasileira tinha influência primordialmente francesa e nesse ponto era exatamente igual à elite mundial dos anos 30 em que não só o francês era a língua oficial como os hábitos, a moda, a arquitetura e a gastronomia eram de influência notadamente francesa.

Não existiam, porém, “menus degustação”, mas a alta culinária francesa predominava e os cardápios (independente da origem do prato) eram escritos em francês, hábito que predominou no Brasil até, pelo menos, o final da década de 1970

Algumas dessas adaptações eram bizarras, mas o francês era inescapável, assim o “perú recheado com farofa” se tornava o “dindon farcie à la brésilienne”.

O livro de Joaquim Ferreira dos Santos sobre o colunista Zózimo Barroso do Amaral, “Enquanto houver champagne, há esperança” cita que, em determinada festa de gala no Jockey Club Brasileiro no final dos anos 60, a tradicional sobremesa de origem portuguesa, “papos de anjo” vinha grafada como “jabots d`ange” para melhor compreensão da elite carioca...

Fato é, porém, que nenhum evento de importância deixava de ter seu banquete de abertura, de encerramento, de homenagem ou de qualquer pretexto que fosse. Ainda que os “cocktails” já fossem hábito, o importante mesmo era o banquete, minuciosamente avaliado pela quantidade de convidados sentados, pela quantidade de pratos servidos, qualidade das iguarias do cardápio, pelo gabarito das bebidas e pela elegância e prestígio dos convidados. Uma obsessão brasileira em geral e carioca em particular, os banquetes foram parte de nossa história a ponto de serem eles mesmos “marcos temporais” da história como o famoso Baile da Ilha Fiscal e seu deslumbrante banquete oferecido por nosso Imperador D. Pedro II ele mesmo um apreciador e colecionador de cardápios (leia-se a respeito o Magnífico livro “Os Banquetes do Imperador” de Francisco Lellis e André Boccato).

Refeições formais nos anos 30: os pratos e como serví-los

Algumas coisas tinham mudado desde o tempo dos Luíses na França e o antigo “serviço à francesa” dos séculos 17 e 18 normalmente compostos de três serviços cada qual com dezenas de pratos que vinham todos juntos em travessas alinhadas na mesa e às vezes saiam dela “intocados” foram sendo substituídos por etapas mais bem definidas.

Entre metade e final do século 19 a sequência de uma refeição “de cerimônia” podia ser pontuada genericamente como “hors d`oeuvres” (onde se incluíam canapés e patês ) “potages” (sopas em geral, podendo ser de diversas espécies como, soupes consommées, crèmes, veloutées, etc),  relevés” (onde normalmente se encontrava o primeiro prato de peixe (poisson), “entrées”  (pratos geralmente envolvendo carnes de diversas origens, mas antes dos assados que seriam o prato forte)) “rotis” (em categoria especial para os assados que seriam o “ponto alto” dos pratos salgados), acompanhados de “entremets” (aqui normalmente os legumes de acompanhamento), seguidos eventualmente de “salades”“fromages” (queijos), seguidos de ”fruits de la saison” (frutas da estação)  e sobremesas variadas, entenda-se, o “dessert”  em uma sequência preconizada pelo lendário “Chef”  francês Georges Auguste Escoffier.

No início do século vinte isso já estava simplificado mal ou bem em uma sequência em que se definiam canapés e aperitivos frios, depois a obrigatória sopa (conforme a estação do ano podendo ser uma sopa fria ou em substituição uma salada), na sequência o prato de peixe seguido do prato de ave e/ou o prato de carne vermelha com seus acompanhamentos, frutas, sobremesas e docinhos servidos com café ou chá, e essa configuração que permanece, mal ou bem, nas refeições formais até os dias de hoje 

Menos específicas do que hoje eram as descrições das bebidas, sendo que alguns cardápios traziam a lista de vinhos somente ao final do “menu”. Porém já estava se tornando mais comum nos anos 30 descrever o vinho junto do prato que acompanhava. No entanto, os cardápios desse tempo raramente colocavam a marca e a safra, optando muitas vezes por descrição genérica. Por exemplo, o cardápio citava o “porto” ou o “madeira” sem dizer a marca ou produtor específico e eventual tipo e safra (se houvesse) do vinho do porto ou do vinho madeira servido. E a “contrário-senso” às vezes colocavam diretamente a marca ou produtor como se fosse o sinônimo do tipo de bebida como “Veuve Cliquot” (como sinônimo de Champagne). Mas havia, como hoje, a lógica do vinho próprio que acompanhava a sequência de pratos (branco, tinto, de sobremesa, espumante, fortificado) descendo a detalhes dos destilados (se fossem) servidos depois (cognacs, armagnacs etc)

Sobre a forma de servir, no final do século 19 e início do século 20 o serviço predominante em banquetes e jantares formais em residências de categoria era o serviço à francesa. 

Curiosamente o “serviço à francesa” não foi uma invenção francesa, mas, segundo se diz, uma invenção de um embaixador russo na França e por isso inicialmente conhecido como “service a la russe”. Ao invés dos incontáveis serviços com todas as travessas sobre a mesa, algumas das quais saiam intocadas, o empregado(a) ou “garçon” (mais um galicismo incorporado à nossa língua) passou a servi-los diretamente ao comensal em imponentes baixelas normalmente de prata, prateadas ou em vermeil. O comensal, empunhado os talheres de servir levava a comida ao próprio prato e assim com os molhos etc., com algumas variações conforme o tipo de alimento.

Bem esse serviço à francesa predominou nas refeições de luxo formais e banquetes e estava plenamente em voga nos anos 1930 muito antes que viessem os serviços “à inglesa” ou “mistos” com os pratos individuais vindo “montados” da cozinha e/ou de um aparador próximo, ou o até o hoje quase inevitável “bufett à americana” predominante em festas e casamentos onde o comensal vai se servir em mesas longas (ou buffets) para retornar à mesa de refeição em si ou em qualquer lugar onde possa se  acomodar com seu prato abastecido.

A principal mudança em relação ao fim do seculo 19 e início do século 20 se tornou uma menor quantidade de pratos (principalmente após as grandes guerras em que se tornou deselegante a quantidade exagerada de pratos enquanto haviam restrições de fornecimento de alimentos). Também foi caindo quase que definitivamente o hábito do sorvete ou ponche gelado como “limpa paladar entre pratos” (também referido como um brinde no meio da refeição ou “coup du milieu”) embora esse hábito sobrevivesse de forma muito limitada.

O serviço à francesa exigia grande quantidade de empregados uniformizados. 

Na refeição de grande cerimônia o serviço era sempre feito por homens e seus trajes seguiam o padrão dos convidados, sendo normalmente “mais formais” que os trajes dos convidados, em uma lógica que prevalece até hoje. (o cliente no restaurante pode estar vestido de forma casual ou esportiva, mas o atendente estará normalmente uniformizado vestido de maneira mais formal e “coberta” que o comensal/cliente).

Sempre lembrando que nos anos 1930 já haviam caído em desuso os “librés” mesmo nas famílias de origem nobre, Vamos resumidamente exemplificar. 

O que a Elite masculina vestia em 1937: nessa época o traje semi-formal masculino para o dia era o terno e gravata (e suas variações como o “costume completo”, etc). O traje formal para o dia era o fraque. O traje semi-formal para a noite era o smoking e o traje formal para a noite era a casaca. 

Descritos por Iracema Soares Castanho em seu clássico “Etiqueta Social” vamos reproduzir resumidamente.

Fraque paletó comprido de abas sempre em cinza muito escuro, calças sempre em cinza mais claro “lisas” ou listradas, colete cinza, camisa de colarinho duro com ou sem abas viradas, sempre branca, gravata ou “plastron” de seda cinza ou cinza prata. Acompanham como acessórios luva cinza e cartola cinza ou preta. O meio fraque é o mesmo, mas com o paletó mais curto. O fraque caiu em completo desuso, sendo hoje visto apenas em casamentos (onde noivo e padrinhos eventualmente usam o meio fraque) e no exterior na Europa onde o fraque é exigido em determinados eventos à luz do dia como por exemplo, posses de presidentes ou ministros na Europa, funerais, missas solenes, etc ou certos eventos esportivos como as famosas corridas de cavalo de Royal Ascot e o Derby de Epson.



Foto: Getúlio Vargas recebe membros da Igreja no Palácio do Catete. Notem o uso do fraque longo com cartolas e luvas.

Nos anos 30 ainda em uma série de eventos formais diurnos no Rio (entre os quais posses, casamentos, missas solenes e certos eventos esportivos como o GP Brasil de turf) os homens eram vistos de fraque.

Já a casaca ou traje formal masculino para a noite era composta paletó comprido com abas sempre preto, lapela em cetim preto e calças pretas no mesmo tecido. Camisa de peito duro branca com colarinho virado, com colete sempre branco e gravata borboleta branca. Como acessórios luvas sempre brancas e cartola toda preta. A casaca ainda se usa em eventos de gala e bailes formais ou recepções de estado da nobreza européia (os bailes denotados pela expressão “black and white” balls) e ainda é o traje formal dos músicos em orquestra.

Com fraque e casaca ainda se usam sapatos de verniz e, sendo o caso, polainas brancas

A casaca, mais limitadamente, era vista nos eventos formais noturnos, sendo que por muitos anos as fotos formais dos presidentes brasileiros eram de casaca.


Foto: o Presidente Washington Luiz ao centro com a faixa e seus ministros de casaca e gravata borboleta branca (o “white tie”).


O “smoking” (denominado “tuxedo” nos EUA, “dinner jacket” na Grã Bretanha) era algo mais recente.  Teoricamente o dinner jacket é uma criação de cerca de 1865 dos famosos alfaiates londrinos da Henry Poole & Co. (de Savile Row, obviamente) para o então Príncipe de Gales futuro Rei Eduardo VII consistente paletó preto em comprimento padrão de paletó normal (sem abas), com lapela de cetim de seda preta, sendo comum o paletó ter gola “chale” ou lapela de jaquetão, sendo o primeiro normalmente fechado por um só botão exceto se toda a composição for ao estilo de jaquetão (paletó trespassado classicamente com quatro ou seis botões). As calças do mesmo tecido preto, com listra de cetim de seda preta. Camisa branca de peito duro com colarinho duro (com ou sem abas viradas) e gravata borboleta preta – a “black tie” -. Sapatos pretos podendo ser de verniz e como acessório usa-se faixa de seda preta na cintura. Nesse mesmo conjunto pode-se usar o paletó de tecido leve normalmente branco ou branco creme (neste caso sem lapela de cetim) chamado de “summer jacket” com todos os demais detalhes do smoking normal. Alternativamente existia ainda um paletó muito curto com o recorte baixo de um colete chamado de mess-jacket em uso nos anos 30/40, mas depois praticamente extinto

O Smoking rapidamente caiu no gosto da elite brasileira, revelando-se bem mais prático que a casaca e com o mesmo caimento e facilidade de uso de um terno normal. Ao longo do tempo seus acessórios foram simplificados, mas nos anos 30 a indumentária não só estava em pleno uso como formalmente exigida em ambientes privados como festas, bailes, recepções de clubes, etc) como também em locais públicos como nos cassinos, entre os quais como exigência nas noites de sexta feira e sábado no Cassino do Copacabana Palace Hotel. O smoking continuou sendo a opção ao uso de fantasia até mesmo nos mais famosos bailes de carnaval cariocas por muitos anos adiante.

Então o traje dos empregados homens (garçons) que normalmente serviam a mesa seguia essa lógica. Fraque para serviço até o entardecer, casaca para serviço noturno. Quando a elite  deixou de vestir a casaca na hora do jantar e adotou o smoking (também conhecido, conforme país, como “tuxedo” ou “dinner jacket”) os garçons fizeram o mesmo. Quando nos anos 30 apareceram os summer jackets (paletós em “branco creme”, no Brasil os empregados de mesa ou “garçons” adotaram o summer jacket, habito que sobreviveu até início do seculo 21. O summer jacket foi por décadas a roupa dos garçons, sendo chefiados por um “maitre” (maitre d`hotel) com o smoking clássico de paletó escuro.

Para quem assistiu a famosa série de televisão “Dowton Abbey” que se passa nas décadas de 1910 e 1920 é fácil notar. Inicialmente os nobres jantam de casaca e seus empregados servem de casaca. A certa altura, como novidade, eles passam a jantar de smoking, mas os empregados seguem de casaca. Nos jantares mais formais os nobres e os empregados voltam a estar todos de casaca. Mas em uma condição excepcionalmente formal, como no primeiro filme depois do final da série, quando os nobres recebem o Rei da Inglaterra, estão todos de casaca, mas os empregados estão de “librés” (em francês livrée e em inglês a ‘state livery”dos footmen) ou seja os antigos uniformes nas cores da casa retrocedendo à formalidade do século 18, início do século 19



Ilustração: O summer jacket com botão único ou trespassado foi moda nas festas de verão dos anos 30. Calça, camisa e acessórios seguiam, porém, o smoking tradicional.

 

Vejamos o exemplo aleatório do que era um cardápio dos anos 30 (notem o cabeçalho com moldura “art deco”):


1)    Canapés de caviar: blinis ou torradinhas com creme azedo (creme de leite batido com suco de limão) cobertos com delicada porção de alguns dos diferentes tipos de caviar (classicamente ovas de esturjão, das espécies Beluga / Beluga Albino /Oscietra e Sevugra) 

       Vinho Madeira:  possivelmente aqui um vinho madeira seco que tradicionalmente acompanha muito bem canapés de caviar e salmão)

2)    Soupe Alenois uma típica sopa de agrião possivelmente na tradição francesa com batatas e creme de leite, sendo inconcebível qualquer jantar de cerimônia se iniciar sem uma sopa. A “sopa” usamos como termo genérico para as diversas espécies da cozinha francesa de soupes, potages, bisques, consommés, veloutés cada qual com sua especificação técnica)  

3)    O filet de sole turgueneff, filé de linguado que na ordem antiga seria um “relevé”)

Vinho Rhin (marca não identificada): vinho branco da região do Rio Reno provavelmente um vinho francês da região da Alsácia.

4)    Galantine de foie gras: dentro da melhor tradição francesa as galantinas normalmente são envolvidas em massa no formato de tubo achatado ou  no formato retangular e  servidas fatiadas com acompanhamentos frios, inclusive fatias de gelatina fria feita a partir de caldos com vinho do porto ou “sherry”. O recheio consistentemente feito com o patê de foie gras (fígado de ganso), uma tradicional especialidade francesa, que poderia ser amalgamado com outras carnes e pedaços de pistache para dar uma nota colorida.

Vinho Salreu Noir: novamente uma expressão confusa e pouco específica para o vinho, mas trata-se de um vinho português da célebre Região de Colares possivelmente o Colares “Visconde de Salreu” elaborado com uvas “pinot noir”.

5)    O “Punch a la Romaine” era o tipo de bebida (“limpa paladar”) usada para preparar o paladar para um prato diverso na sequência e facilitar a digestão. Outro tipo de “limpa paladar” muito comum entre pratos salgados era o sorbet de limão (sorbet au citron). O punch a la Romaine já era um “limpa paladar” famoso no final do século 19 e citado nos cardápios colecionados por D. Pedro II (vide a respeito o excelente livro “Os Banquetes do Imperador” de Francisco Lellis e Andé Boccato) Mas o punch a la romaine ficou mundialmente famoso porque fez parte do cardápio da última ceia servida aos passageiros de primeira classe do transatlântico Titanic em 14 de abril de 1912 e era uma receita original do lendário chef francês Georges Auguste Escoffier já citado anteriormente. Basicamente um “drink” gelado à base de champagne, vinho branco, rum, calda de açúcar, suco de frutas cítricas batidas com gelo triturado

6)    Dindoneau farci - peru recheado com trufas, receita francesa típica da região de Champagne  e portanto muito bem acompanhada de Champagne

7)    Jambon Cheveux D’Or – aqui entra classicamente o segundo assado (“rotí”) normalmente uma portentosa peça inteira de presunto defumado apresentada em travessa, parcialmente fatiado e acompanhado por molho próprio (no serviço à francesa o garçon com a molheira vinha em sequência ao que apresentava o presunto) 

Champagne: Veuve Cliquot – possivelmente seco (brut) para acompanhar pratos salgados – aqui o cardápio identifica o tipo de bebida (champagne) pela marca

8)    Mousse a l`hongroise - A tradição húngara de maravilhosas receitas com chocolate remete as famosas confeitarias húngaras entre as quais o famosíssimo Café Gerbeaud de Budapeste, nos levando a crer que se tratasse da tradicional mousse de chocolate com avelãs e waffer crocante eventualmente decorada com pedaços de pistache;

9)    Coupe S. Moritz. como St. Moritz é região de esqui deve ser uma sobremesa gelada e possivelmente o sorvete da refeição.

10) Friandises: (docinhos para acompanhar café ou chá possivelmente de chocolate) Essa expressão viria depois substituída por “petit-fours”.

Vinho doce Tokaji Aszu: seria um Tokaji ou Tokay da espécie Aszu (espécie do Tokaji assim denominado por diferenças no componente na fermentação)  O tokaji  é um vinho doce húngaro mundialmente famoso, elaboradas  com uvas atacadas por fungos revelando ao mesmo tempo doçura e acidez. Conhecido como “o vinho dos reis e rei dos vinhos” o Tokaji é um dos mais finos vinhos para acompanhamento de sobremesas rivalizando com os melhores “Sauternes” franceses