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Circuito da Gávea: 1937 - GP Cidade do Rio de Janeiro (Cap. 24)

• Por Alfa Romeo Clube do Brasil
Capítulo 24 do incrível artigo elaborado por Alberto Maurício Caló sobre o Circuito da Gávea.
Circuito da Gávea: 1937 - GP Cidade do Rio de Janeiro (Cap. 24)

CIRCUITO DA GÁVEA – 1937 - GP Cidade do Rio de Janeiro

(CAPÍTULO 24)                                                                         Por Alberto Maurício Caló 

CONTINUAÇÃO QUADRO DE PILOTOS


BENEDICTO LOPES 

Brasil 

Equipe: Particular 

Carro: Alfa Romeo 8C 2300 Monza chassis 2311213

Benedicto Moreira Lopes (1904-1989) o “campineiro voador” foi mecânico e depois dono de oficina e teria dado seus primeiros passos no esporte com o incentivo do mesmo comendador (italiano radicado em Campinas) Dante di Bartolomeo, que era o preceptor da Escuderia Excelsior que tinha como volantes Chico e seu irmão Quirino Landi. Como já explicamos acima essa equipe ficaria célebre entre 1934-1939.  

Segundo consta, Di Bartolomeo teria emprestado a Lopes o Bugatti com qual ele participaria da sua primeira Gávea de 1934. Lopes se mudaria para o Rio no ano seguinte e instalaria uma (posteriormente duas) oficinas, presumindo-se que o tenha feito em parceria com seu amigo e colega de corridas Luis Tavares de Moraes que seria visto com ele na Gávea de 1935 como co-piloto de um biposto Ford 34 “adaptado”.  

Nessa famosa Gávea de 1935 marcada pelo trágico acidente de Irineu Correa em outro Ford V-8 adaptado, a dupla liderou e quase arrebatou a prova.

Lopes seguia na liderança quando a três voltas do final se chocou com o carro de Filipe Rueda então retardatário, em um episódio controvertido



Foto: O jovem Benedicto Lopes foi logo identificado como um grande talento. Aqui ele é visto com o Ford V-8 adaptado com o qual começou a se destacar nas provas brasileiras

Em 1936 Lopes, muito perspicaz entendeu logo que o nível dos concorrentes estava muito mais alto e tentou, sem sucesso, comprar a Alfa 8C 2300 Monza de Helle Nice (chassis 2311213) antes da prova da Gávea daquele ano. 


Foto: (montagem fotográfica Diário da Noite). Desde a Gávea de 1936 Benedicto Lopes estava de olho na Alfa de Helle Nice conforme noticiado pelo Diário da Noite de 4/6/36 e teria oferecido 60 contos de réis pela Alfa. O preço – como veremos- seria reduzido após o GP de São Paulo

Sem conseguir comprar a Alfa no Rio, prova em que a francesa enfrentou diversos problemas depois de partir na primeira fila, Lopes foi a São Paulo para disputar o GP de 1936 (do qual, por fim, não teria participado, por um atraso na inscrição),

Como sabemos, em São Paulo a Alfa da francesa correspondeu plenamente. 

Sem poder chegar perto das Alfas 2.900 A “botticella” de Pintacuda e Marinoni, Helle Nice se envolveu em uma emocionante disputa pelo terceiro lugar com Manuel de Teffe, (também ele com Alfa 8C 2300 Monza). Do trágico acidente que resultou dessa disputa, sobrou a Alfa Monza da francesa muito danificada.

Mas Lopes iniciou entendimentos com Arnoldo Binelli, mecânico de Helle Nice, enquanto a francesa se recuperava após o acidente

Lopes e seus familiares, em depoimento posterior, confirmaram ter comprado a Alfa da piloto francesa que, de volta a Europa teria inclusive ajudado Lopes a fazer os contatos necessários para compra de peças na Europa para restauração do carro. Segundo o depoimento de Lopes o preço final da Alfa danificada teria sido 25 contos de réis ( i.e um bom desconto sobre os 60 contos oferecidos e recusados antes da Gávea de 1936. 


Foto: (site Bandeira Quadriculada) No GP de São Paulo de 1936 a magnífica Alfa 8C 2300 Monza de Helle Nice estava pintada em dois tons de azul e apelidada pela imprensa paulista de “Flecha Azul” ou “Pássaro Azul”. A francesa mostra todo seu estilo ao caprichar a tangência de uma das curvas do Circuito do Jardim América. Na foto ao lado direito aparece a parte frontal da Alfa após o terrível acidente.

Lopes estaria de volta na prova de Subida de Montanha de Petrópolis com a Alfa 8C 2300 Monza (chassis 2311213) devidamente restaurada e com uma nova carroceria biposto com a frente atualizada ao estilo das alfas mais novas.

Aqui precisamos fazer algumas observações. Embora se diga que a Radio Record tenha feito uma campanha para captar recursos para a recuperação do carro de Helle Nice, pouco se sabe sobre seu resultado, acreditando-se que a campanha tenha sido em prol das vítimas do desastre ou para a piloto;

Como toda restauração de um carro acidentado, a carroceria azul deve ter sido separada do chassis, presumindo-se que com base nela os funileiro de Lopes tenham construído praticamente uma outra carroceria, ainda biposto.

Possivelmente Lopes e seus funileiros que “atualizaram” e trocaram partes -ou toda- carroceria do carro mas ainda deixaram a Alfa Monza  na configuração “biposto” do modo que  apareceu na Gávea de 37 e nas provas que Lopes fez logo em seguida em Portugal (Villa Real e Estoril) às quais foi a convite do Automovel Clube de Portugal e com o incentivo e eventual apoio financeiro do já citado Comendador Sabbado D` Angelo e de Arnaldo Borghi.

Testemunhos dão conta que nas provas seguintes em Portugal (Vila Real em 25 de julho de 1937 e  Estoril em 15/7 /37) o carro era basicamente amarelo com detalhes verdes e, pelas fotos estava reconstruído como um biposto levemente modernizado principalmente na grade.

Feita essa ressalva sobre a carroceria e sem prosseguir nos detalhes da vida subsequente do carro, parece incontroverso que o carro de Lopes na Gávea de 1937 era a 8C 2300 Monza ex Helle Nice (chassis 2311213).


Foto: Após a Gávea de 1937, Benedicto Lopes foi fazer sua famosa temporada em Portugal com a mesma  Alfa (ex-Helle Nice). Aqui ele é visto  no Circuito do Estoril. Notem que a 8C 2300 Monza foi restaurada com uma grade levemente modernizada mas ainda com uma carroceria biposto pintada nas cores oficiais brasileiras ( amarelo com chassis e rodas verdes).

Lopes teria ainda uma longa carreira e algumas vitórias com essa e outras Alfas  (inclusive nos Circuitos do Chapadão em Campinas e da Quinta da Boa Vista no Rio) sendo que o  chassis 2311213 a uma certa altura passaria a ser visto com o conhecido piloto Luiz Tavares de Moraes que se associaria a Lopes em uma oficina no Rio e dai para o piloto Oldemar Ramos. 

Lopes conseguiria um bom quarto lugar na prova inaugural do Circuito de Interlagos em 1940 ainda com Alfa. Depois da Guerra seria visto em Maseratis assinalando nova vitória no Circuito da Quinta da Boa Vista em 1947 e em Petrópolis em 1948. Participou da última Gávea em janeiro de 1954 (oficialmente a edição de 1953) com uma Ferrari 166 MM (abandono) e em seguida, aos 49 anos de idade, venceu o III Circuito do Maracanã com Maserati 6CM no que foi a última prova do grande piloto brasileiro.

 

RUBENS ABRUNHOSA

Brasil 

Equipe: Particular 

Carro: Alfa Romeo 8C 2300 Monza (chassis 2311216? SF...?)


O volante carioca Rubem (Rubens) Abrunhosa (1914-1982) então com aproximadamente 23 anos era teoricamente o mais jovem piloto da Gávea de 1937, ainda no começo de uma prolifica carreira no automobilismo nacional. Não conseguimos os dados etários de exatamente todos os pilotos conforme descrito acima, mas cremos que nenhum deles tira de Abrunhosa o título de “jovem talento” presente.

Abrunhosa cuja simpatia o tornou muito querido do público mais tarde se tornou piloto da aviação civil, sendo tratado por “comandante“ ou, pelos mais íntimos, por seu apelido de “bimba” ou, em um trocadilho com Von Stuck, também foi apelidado de “Von Bimba”. 

Abrunhosa já vinha de participar da Gávea de 1935 com Hudson e de 1936 com Studebaker

Se Abrunhosa era jovem, sua Alfa na Gávea de 1937 já tinha um “passado”.

Abrunhosa, vendo a superioridade dos melhores carros europeus sobre os “especiais” adaptados localmente se preparou para vôos mais altos e providenciou a aquisição de uma 8C 2300 Monza.

Essa era reputadamente a 8C 2300 “Monza” ex- Manuel de Teffé, e assim precipuamente a 8C Monza usada por Teffé em provas importantes se destacando por exemplo:

a)     na Gávea de 1935 (onde abandonou por quebra do diferencial quando estava liderando a prova); 

b)    em provas argentinas inclusive nas 500 milhas de Rafaela (sexto lugar em 1935)

c)     no início de 1936 onde venceu o “quilômetro lançado” na Av. Epitácio Pessoa, (Lagoa, Rio de Janeiro) e na Subida de Petrópolis, abandonando, porém, no GP Termal de Poços de Caldas;

d)    na Gávea 1936 onde brasileiro era notoriamente o piloto mais rápido depois da “intocável” Alfa Botticella do líder de Pintacuda. Nessa prova Teffé quase venceu após a quebra de Pintacuda, mas na mesma volta teve que parar para a troca não prevista de uma roda e terminou em terceiro lugar;

e)     no famoso GP de São Paulo de julho de 1936 onde obteve o terceiro lugar atrás das invencíveis Botticellas de Pintacuda e Marinoni e onde se envolveu no trágico acidente com a Alfa Monza de Helle Nice na disputa da terceira posição. O resultado do acidente de Helle Nice foram cinco mortes e dezenas de feridos com maior ou menor gravidade;

f)     na Argentina em agosto de 1936 quando venceu uma das preliminares do GP da Argentina em Buenos Aires e ficou em quarto lugar na final vencida por Carlos Arzani com a Alfa Botticella, conforme descrevemos acima

g)    no início de, 1937 quando vence novamente na subida de Petrópolis;

Na Gávea de 1937 Teffé estava originalmente inscrito com sua Alfa 8C 2300 Monza e depois com a Alfa P3 “presenteada” pelo Automóvel Club Brasileiro (ACB) como narramos nos capítulos acima. Após a polemica sobre a P3 recebida, Teffé acabou suspenso e a Alfa P3 apreendida.

Porém deve ter sobrevivido formalmente uma inscrição original de Teffé com a Alfa Monza, o que causou confusão pois o ACB interpretou que tanto o carro (Alfa Monza) como o piloto (Teffé) estariam suspensos. 

No meio tempo Teffé deve ter vendido a 8C Monza para Abrunhosa. o que obrigou Abrunhosa a comprovar a aquisição do carro para o ACB, apresentando um recibo do preço pago e consequentemente “liberá-lo” para a prova


Sem adiantarmos os comentários sobre os treinos dos quais trataremos mais adiante, podemos notar que Abrunhosa deve ter se adaptado rapidamente ao carro e obteve uma classificação razoavelmente competitiva, ficando atrás dos carros mais potentes (Auto Union de Stuck, Alfa 12 C 36 de Brivio as 8C35 de Pintacuda e Arzani, a P3 de Nascimento Junior, a Monza com motor 2600 de Vasco Sameiro a 2.900 A de Carú, a Monza de Benedito Lopes, a Monza (também possivelmente com motor 2600) de Gazzabini e a P3 (que não correria) de Teffé. Vejam a lista de tempos abaixo.


 


Jornal A Batalha 5/6/37